sexta-feira, 30 de abril de 2021

POEMA: JOSÉ de Carlos Drummont de Andrade

José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

sexta-feira, 23 de abril de 2021

RG e substantivos próprios

 
A IMPORTÂNCIA DE TRABALHAR LÍNGUA PORTUGUESA E ARTE AO MESMO TEMPO
👏👏👏👏
Contribuições da arte para o desenvolvimento da língua portuguesa O trabalho desenvolvido para este projeto iniciou com a aplicação de uma avaliação diagnóstica para identificar os conhecimentos dos alunos sobre a possível relação entre a História da Arte e a Literatura. O Ensino dos conhecimentos sobre a História da Arte no Brasil inicia-se no Ensino Fundamental II e continua até o terceiro ano do Ensino Médio. Dessa forma, os alunos colaboradores do projeto e integrantes da turma já estudaram os conteúdos abordados no 2234 instrumento aplicado. Foram utilizadas duas aulas de aproximadamente 50 minutos para a realização desta primeira atividade diagnóstica. O instrumento diagnóstico aplicado a 24 alunos foi elaborado com questões abertas que investigavam suas percepções quanto ao que entendiam por Literatura e Arte, além de atividades que abordavam a representação de texto em forma de imagem, descrição de imagem em forma de texto, interpretação de texto em forma de gênero musical e associações de características históricas relacionadas à Arte. Para este relato de experiência somente será possível apresentar o resultado geral das análises realizadas a partir das respostas do alunos, não sendo possível descrever cada uma das questões. Finalizadas as atividades de intervenção propostas para este projeto, foi aplicado mais um instrumento diagnóstico. Porém, para este momento foram selecionadas questões que contemplavam cinco Descritores, do Nível 5. Trata-se de indicadores do teste da proficiência de Língua Portuguesa, escolhidos na Matriz de Referência da Prova Brasil e que procuram identificar se os alunos: reconhecem efeitos de ironia ou humor em textos variados; estabelecem relação causa/consequência entre partes e elementos do texto; localizam a informação principal; identificam a tese e os argumentos que a defendem em textos argumentativos; distinguem o sentido metafórico do literal de uma expressão (BRASIL, 2011c). Este último instrumento foi aplicado aos mesmos 24 alunos participantes das atividades diagnóstica e de intervenção. Foi elaborado com cinco atividades, compostas por perguntas abertas e também de múltipla escolha. As questões foram selecionadas dos Exames do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), considerando a habilidade dos alunos que se pretendia verificar, conforme os cinco descritores citados anteriormente. Os alunos da Escola participante do projeto OBEDUC, em 2011, demonstraram na Prova Brasil, realizando o teste de Proficiência em Língua Portuguesa, estar no Nível 4, da Escala da Matriz de referência. Com isso, pode-se dizer que o ensino ofertado até aquele momento demonstrou oferecer condições de os alunos alcançarem os descritores referidos no início deste texto. Com este estudo pretendia-se verificar se o Ensino na Escola a partir de 2011 possibilitou que os alunos avançassem em seus conhecimentos. Então, três anos depois, 2235 em 2014, por meio da análise das respostas dos alunos sobre estes cinco descritores, foi possível perceber que, no que se refere a: Reconhecer efeitos de ironia ou humor em textos variados, 24 alunos responderam corretamente. Identificar a tese e os argumentos que a defendem em textos argumentativos, 23 alunos demonstraram compreender a estratégia argumentativa do autor; no entanto, somente 12 demostraram compreender a tese, talvez porque nesta alternativa deveriam expressar seu entendimento por meio da formulação de uma resposta. Localizar a informação principal, 14 não formularam suas próprias respostas, apenas copiaram do texto alguns trechos; 10 alunos formularam suas próprias frases, responderam corretamente, com certa dificuldade na escrita e com algumas cópias do texto. Estabelecer relação causa/consequência entre partes e elementos do texto: na questão A, um não respondeu; 15 alunos demonstraram dificuldade na escrita e, na elaboração da resposta, acertaram parcialmente. Eles se prenderam em copiar trechos do poema e do texto; seis alunos conseguiram responder às questões. Somente dois alunos não conseguiram responder à atividade de uma forma clara e correta. Na questão B, um aluno não respondeu, seis alunos tentaram apresentar alguma explicação sobre o texto, mas não seguiram a proposta. Os outros 17 alunos conseguiram selecionar os trechos, apesar de demonstrarem dificuldade para escolhê-los. Distinguir o sentido metafórico do literal de uma expressão, um não respondeu, um acertou o sentido literal, mas interpretou o metafórico de forma equivocada, 18 alunos conseguiram descrever o sentido metafórico e o literal da propaganda, com dificuldade na escrita e elaboração da resposta, quatro alunos restantes não conseguiram descrever o sentido metafórico e literal, apresentando uma interpretação de difícil compreensão. Foi percebido que os alunos, em geral, ainda possuem dificuldades: na escrita das palavras, apresentando erros gramaticais e ortográficos; na elaboração de pequenos parágrafos de forma clara, objetiva e consistente; além de demonstrar falta de atenção na leitura dos enunciados ou talvez um problema de interpretação da tarefa. Por outro lado, conseguem minimamente interpretar e descrever imagens, textos e músicas a partir de um material de apoio.
 Disp. em https://educere.bruc.com.br/arquivo/pdf2015/16845_10967.pdf. Acesso em 23/0421.


Diferença de conto fantástico e conto maravilhoso

Diferença de conto fantástico e conto maravilhoso O conto fantástico é dotado de uma narrativa que apresenta tema livre, composto por um plano irreal e real ao mesmo tempo, opondo a dualidade de ideias. ... O conto maravilhoso é diferenciado do primeiro porque lidam com temáticas reais, essencialmente, de cunho social, apresentando por isso um herói e um antiherói. O conto fantástico é dotado de uma narrativa que apresenta tema livre, composto por um plano irreal e real ao mesmo tempo, opondo a dualidade de ideias. ... O conto maravilhoso é diferenciado do primeiro porque lidam com temáticas reais, essencialmente, de cunho social, apresentando por isso um herói e um antiherói. Os contos fantásticos ou contos de fantasia representam um gênero da literatura fantástica (realismo mágico ou maravilhoso) com origem no século XVII. Esse estilo vigorou nos países latino-americanos a partir do século XX, como forma de denunciar a realidade opressiva vivido pelos anos de ditadura. Segundo o filósofo e linguista búlgaro Tzvetan Todorov: “Há um fenômeno estranho que se pode explicar de duas maneiras, por meio de causas de tipo natural e sobrenatural. A possibilidade de se hesitar entre os dois criou o efeito fantástico.” No gênero fantástico, os textos são pautados numa realidade não lógica. Ou seja, a narrativa se desenrola num mundo irreal ou universo onírico, marcado pelo absurdo, a inverossimilhança e situações e ações extraordinárias. As principais características dos contos fantásticos são: Narrativa concisa a partir de temas livres fantásticos, os quais aliam o fantástico e o real ou a ficção à realidade, surgindo da oposição dentre dois planos: real e irreal. Presença de alegorias e de personagens que podem ser: monstros, fantasmas, seres invisíveis, mágicos, mitológicos ou folclóricos, dentre outros. Realidade ilógica distante da realidade humana, composta de elementos maravilhosos, inverossímeis, imaginários, extraordinário, bem como a presença de magias e poderes sobrenaturais. Enredo não linear ou ziguezagueante (mescla de presente, passado e futuro) com utilização de recursos como o flashback (voltar ao passado) e o tempo psicológico (tempo das emoções e das recordações vividas pelos personagens). Provocam sensações de “estranhamento” no leitor, por meio da ruptura realidade-ficção. Os escritores brasileiros que exploraram o gênero fantástico foram: Aluísio de Azevedo, (1857-1913) em sua obra de contos "Demônios" (1895); Machado de Assis (1839-1908) em seu conto intitulado “O espelho”, pertencente à obra "Papéis Avulsos" (1892); Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) em seu livro "Contos de Aprendiz" (1951), texto como “Flor, telefone, moça”; Murilo Rubião (1916-1991) na obra "O ex-mágico" (1947). Os autores latino-americanos que se destacaram com a publicação de textos desse gênero foram: os argentinos Jorge Luis Borges (1889-1986) e Júlio Cortázar (1914-1984); o colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014); o cubano Alejo Carpentier (1904-1980). Ademais, no âmbito mundial, destacam-se: o escritor austríaco Franz Kafka (1883-1924), com sua emblemática obra "A metamorfose" (1912); o alemão Ernst Theodor Amadeus Hoffmann (1776-1822) com o conto fantástico “Homem de Areia” (1815). Exemplo de Conto fantástico Como exemplo de Conto Fantástico, segue o trecho do texto “Flor, telefone, moça”, de Carlos Drummond de Andrade: “Não, não é conto. Sou apenas um sujeito que escuta algumas vezes, que outras não escuta, e vai passando. Naquele dia escutei, certamente porque era a amiga quem falava. É doce ouvir os amigos, ainda quando não falem, porque amigo tem o dom de se fazer compreender até sem sinais. Até sem olhos. disp. em https://www.todamateria.com.br/conto-fantastico/. Acesso em 22/02/21.

terça-feira, 20 de abril de 2021

É HORA DA LITERATURA- Conto: A moça tecelã – Marina Colasanti


Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.

Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.

Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.

Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos  do algodão  mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.

Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.

Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.

Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranqüila.

Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou em como seria bom ter um marido ao lado.

Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponto dos sapatos, quando bateram à porta.

Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando em sua vida.

Aquela noite, deitada no ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.

E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque tinha descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.

— Uma casa melhor é necessária — disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.

Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente.

— Para que ter casa, se podemos ter palácio? — perguntou. Sem querer resposta imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata.
Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.

Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.

— É para que ninguém saiba do tapete — ele disse. E antes de trancar a porta à chave, advertiu: — Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!

Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou em como seria bom estar sozinha de novo.

Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.

Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins.  Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.

A noite acabava quando o marido estranhando a cama dura, acordou, e, espantado, olhou em volta.  Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.

Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.

 

domingo, 18 de abril de 2021

Curiosidades - Existe dia do youtuber ?


É hora da Curiosidade - Existe dia do youtuber ?
Como ser um Youtuber: o que você precisa fazer para ter um canal de sucesso Para ser um youtuber de sucesso não basta talento e inspiração. Para alcançar sucesso com seu canal, é preciso definir uma série de questões antes, durante e depois da gravação dos vídeos. Entenda melhor com nossas dicas! Quem diria, décadas atrás, que ser um youtuber viraria uma profissão de verdade? O que começou para muita gente apenas como brincadeira, hoje virou fonte de renda principal. E assunto para essas pessoas não falta! Aulas online, música, humor, dicas de beleza, roteiros de viagem, culinária, macetes de videogame. São muitos os que fazem sucesso falando sobre o que fazem de melhor. Com o crescimento do mercado audiovisual, a carreira de youtuber se tornou uma das mais cobiçadas do mundo moderno. Além de tudo, ela é também uma forma rápida de chegar à fama ou gerar visibilidade para a sua marca na internet. Quer descobrir como chegar lá? Confira o checklist que trouxemos neste post, do que você precisa para ser um youtuber! O que envolve ser um youtuber Com a explosão do número de vlogs na internet, o mercado dos youtubers tem hoje altíssima concorrência. Felizmente, o YouTube também tem bastante audiência e demanda por conteúdo original. Existem alguns casos de youtubers que conseguem sucesso quase imediatamente, mas tornar um vídeo viral não garante que o seu canal no Youtube continuará bombando de forma constante. Os youtubers de destaque mantêm a constância e têm, além de talento, muita persistência e dedicação. Se seu objetivo é ser um youtuber, seja por interesse pessoal, seja tráfego orgânico para sua marca, não deixe de seguir as 11 dicas abaixo para não ser ofuscado pela concorrência. Dicas para ser um youtuber profissional 1. Fale sobre o que você gosta Não tente ser quem você não é ou abordar assuntos que não são do seu domínio. Paixão é um elemento importantepara o sucesso de qualquer youtuber. Afinal, o público gosta de ouvir pessoas falando com naturalidade e entusiasmo sobre o que acreditam. Pense nos assuntos que chamam mais a sua atenção e estude-os a fundo para poder falar com gosto e com autoridade. Traga sua personalidade real e única para se diferenciar da multidão. Dessa forma, seus vídeos serão muito mais interessantes e envolventes para encantar a audiência. 2. Conheça seu público Além de se conhecer e trazer o que você gosta, também é necessário entender quem receberá a informação que você produziu. Isso porque os assuntos dos vídeos devem ser relevantes não só para você, afinal, você quer que eles sejam vistos pelos espectadores. Para responder essas perguntas, primeiro defina o nicho que você quer explorar, como estudantes, mulheres e gamers, por exemplo. Para entender o que esse nicho prioriza e quais são suas dores, elabore uma persona com base nos comentários e interações com essas pessoas, além de acompanhar seu comportamento em outros canais parecidos. Assim, você vai conseguir atingir as pessoas certas, que mais facilmente se identificarem com a sua causa ou a missão da sua marca. Ou seja, maior a chance de continuarem assistindo seus vídeos ou mesmo compartilhando os conteúdos. 3. Crie uma identidade Quando falamos de identidade ou personal branding, abordamos tanto os elementos gráficos como a linguagem. Use bastante criatividade para elaborar o nome e a imagem do canal, crie uma interface com cores amigáveis e utilize elementos que façam sentido em relação ao que você comunica. Além disso, entenda o estilo de linguagem da sua persona, como se utilizam gírias ou termos mais técnicos e se preferem mais coloquialidade. Dessa forma, será mais fácil se conectar com o espectador e promover interação no canal. 4. Otimize a taxa de cliques Seu vídeo pode ter um conteúdo fantástico para o espectador, mas ele só saberá disso se clicar e começar a assistir. O famoso “não julgue um livro (no caso, vídeo) pela capa”, não funciona bem assim no Youtube. Por isso, é indispensável caprichar muito no título e imagem de capa de cada vídeo (as thumbnails), para que gerem curiosidade no público e resultem na conversão. Além disso, é possível aumentar o potencial de visibilidade utilizando tags, adicionando descrições e associando o canal ao site da empresa na ferramenta de gerenciamento do Youtube. Com esses hacks, tanto os buscadores quanto os usuários chegarão mais rápido até seu conteúdo. 5. Preocupe-se com a qualidade geral dos vídeos Além da qualidade do conteúdo, um bom youtuber presta atenção na qualidade do vídeo em si. Isso quer dizer que o áudio e a iluminação devem ter uma qualidade satisfatória para não atrapalhar a experiência do usuário. Além disso, com muita técnica e criatividade, a edição pode multiplicar o potencial de sucesso de um vídeo, tornando-o bem profissional e autêntico. Disp em https://rockcontent.com/br/blog/como-ser-um-youtuber/. Acesso em 18/2/21.

sábado, 17 de abril de 2021

REFLEXÃO: O FRIO QUE VEM DE DENTRO


O frio que vem de dentro


Conta-se que seis homens ficaram presos numa caverna por causa de uma avalanche de neve.

Teriam que esperar até o amanhecer para receber socorro. Cada um deles trazia um pouco de lenha e havia uma pequena fogueira, ao redor da qual eles se aqueciam.

Eles sabiam que, se o fogo apagasse, todos morreriam de frio, antes que o dia clareasse.

Chegou a hora de cada um colocar sua lenha na fogueira. Era a única maneira de poderem sobreviver.

O primeiro homem era racista. Ele olhou demoradamente para os outros cinco e descobriu que um deles tinha a pele escura.

Então raciocinou consigo mesmo: Aquele negro! - Jamais darei minha lenha para aquecer um negro. E guardou-a, protegendo-a dos olhares dos demais.

O segundo homem era um rico avarento. Ele estava ali porque esperava receber os juros de uma dívida.

Olhou ao redor e viu um homem da montanha que trazia sua pobreza no aspecto rude do semblante e nas roupas velhas e remendadas.

Ele calculava o valor da sua lenha e, enquanto sonhava com o seu lucro, pensou: Eu, dar a minha lenha para aquecer um preguiçoso, nem pensar.

O terceiro homem era negro. Seus olhos faiscavam de ira e ressentimento. Não havia qualquer sinal de perdão ou de resignação que o sofrimento ensina.

Seu pensamento era muito prático: É bem provável que eu precise desta lenha para me defender.

Além disso, eu jamais daria da minha lenha para salvar aqueles que me oprimem. E guardou suas lenhas com cuidado.

O quarto homem era um pobre da montanha. Ele conhecia mais do que os outros os caminhos, os perigos e os segredos da neve.

Esse pensou: Esta nevasca pode durar vários dias. Vou guardar minha lenha.

O quinto homem parecia alheio a tudo. Era um sonhador. Olhando fixamente para as brasas, nem lhe passou pela cabeça oferecer a lenha que carregava.

Ele estava preocupado demais com suas próprias visões (ou alucinações?) para pensar em ser útil.

O último homem trazia nos vincos da testa e nas palmas calosas das mãos os sinais de uma vida de trabalho. Seu raciocínio era curto e rápido.

Esta lenha é minha. Custou o meu trabalho. Não darei a ninguém, nem mesmo o menor dos gravetos.

Com estes pensamentos, os seis homens permaneceram imóveis. A última brasa da fogueira se cobriu de cinzas e, finalmente apagou.

No alvorecer do dia, quando os homens do socorro chegaram à caverna encontraram seis cadáveres congelados, cada qual segurando um feixe de lenha.

Olhando para aquele triste quadro, o chefe da equipe de socorro disse:

O frio que os matou não foi o frio de fora, mas o frio de dentro.

* * *

Não deixe que a friagem que vem de dentro mate você.

Abra o seu coração e ajude a aquecer aqueles que o rodeiam.

Não permita que as brasas da esperança se apaguem nem que a fogueira do otimismo vire cinzas.

Contribua com seu graveto de amor e aumente a chama da vida onde quer que você esteja.

Autor: Desconhecido

Venha Ver o Pôr do Sol - Lygia Fagundes Telles


Venha ver o pôr do sol – Lygia Fagundes Telles


ELA SUBIU sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude da tarde.


Ele a esperava encostado a uma árvore. Esguio e magro, metido num largo blusão azul-marinho, cabelos crescidos e desalinhados, tinham um jeito jovial de estudante.
– Minha querida Raquel.
Ela encarou-o, séria. E olhou para os próprios sapatos.
– Vejam que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. Que idéia, Ricardo, que idéia! Tive que descer do taxi lá longe, jamais ele chegaria aqui em cima.

Ele sorriu entre malicioso e ingênuo.
– Jamais, não é? Pensei que viesse vestida esportivamente e agora me aparece nessa elegância…Quando você andava comigo, usava uns sapatões de sete-léguas, lembra?
– Foi para falar sobre isso que você me fez subir até aqui? – perguntou ela, guardando as luvas na bolsa. Tirou um cigarro. – Hem?!
– Ah, Raquel… – e ele tomou-a pelo braço rindo.
– Você está uma coisa de linda. E fuma agora uns cigarrinhos pilantras, azul e dourado…Juro que eu tinha que ver uma vez toda essa beleza, sentir esse perfume. Então fiz mal?
– Podia ter escolhido um outro lugar, não? – Abrandara a voz – E que é isso aí? Um cemitério?
Ele voltou-se para o velho muro arruinado. Indicou com o olhar o portão de ferro, carcomido pela ferrugem.
– Cemitério abandonado, meu anjo. Vivos e mortos, desertaram todos. Nem os fantasmas sobraram, olha aí como as criancinhas brincam sem medo – acrescentou, lançando um olhar às crianças rodando na sua ciranda. Ela tragou lentamente. Soprou a fumaça na cara do companheiro. Sorriu. – Ricardo e suas idéias. E agora? Qual é o programa?
Brandamente ele a tomou pela cintura.
– Conheço bem tudo isso, minha gente está enterrada aí. Vamos entrar um instante e te mostrarei o pôr do sol mais lindo do mundo.
Perplexa, ela encarou-o um instante. E vergou a cabeça para trás numa risada.
– Ver o pôr do sol!…Ah, meu Deus…Fabuloso, fabuloso!…Me implora um último encontro, me atormenta dias seguidos, me faz vir de longe para esta buraqueira, só mais uma vez, só mais uma! E para quê? Para ver o pôr do sol num cemitério…
Ele riu também, afetando encabulamento como um menino pilhado em falta.
– Raquel minha querida, não faça assim comigo. Você sabe que eu gostaria era de te levar ao meu apartamento, mas fiquei mais pobre ainda, como se isso fosse possível. Moro agora numa pensão horrenda, a dona é uma Medusa que vive espiando pelo buraco da fechadura…
– E você acha que eu iria?
– Não se zangue, sei que não iria, você está sendo fidelíssima. Então pensei, se pudéssemos conversar um instante numa rua afastada…- disse ele, aproximando-se mais. Acariciou-lhe o braço com as pontas dos dedos. Ficou sério. E aos poucos, inúmeras rugazinhas foram se formando em redor dos seus olhos ligeiramente apertados. Os leques de rugas se aprofundaram numa expressão astuta. Não era nesse instante tão jovem como aparentava. Mas logo sorriu e a rede de rugas desapareceu sem deixar vestígio. Voltou-lhe novamente o ar inexperiente e meio desatento –Você fez bem em vir.
– Quer dizer que o programa… E não podíamos tomar alguma coisa num bar?
– Estou sem dinheiro, meu anjo, vê se entende.
– Mas eu pago.
– Com o dinheiro dele? Prefiro beber formicida. Escolhi este passeio porque é de graça e muito decente, não pode haver passeio mais decente, não concorda comigo? Até romântico.
Ela olhou em redor. Puxou o braço que ele apertava.
– Foi um risco enorme Ricardo. Ele é ciumentíssimo. Está farto de saber que tive meus casos. Se nos pilha juntos, então sim, quero ver se alguma das suas fabulosas idéias vai me consertar a vida.
– Mas me lembrei deste lugar justamente porque não quero que você se arrisque, meu anjo. Não tem lugar mais discreto do que um cemitério abandonado, veja, completamente abandonado – prosseguiu ele, abrindo o portão. Os velhos gonzos gemeram. – Jamais seu amigo ou um amigo do seu amigo saberá que estivemos aqui.
– É um risco enorme, já disse . Não insista nessas brincadeiras, por favor. E se vem um enterro? Não suporto enterros.
– Mas enterro de quem? Raquel, Raquel, quantas vezes preciso repetir a mesma coisa?! Há séculos ninguém mais é enterrado aqui, acho que nem os ossos sobraram, que bobagem. Vem comigo, pode me dar o braço, não tenha medo…
O mato rasteiro dominava tudo. E, não satisfeito de ter se alastrado furioso pelos canteiros, subira pelas sepulturas, infiltrando-se ávido pelos rachões dos mármores, invadira alamedas de pedregulhos esverdinhados, como se quisesse com a sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da morte. Foram andando vagarosamente pela longa alameda banhada de sol. Os passos de ambos ressoavam sonoros como uma estranha música feita do som das folhas secas trituradas sobre os pedregulhos. Amuada mas obediente, ela se deixava conduzir como uma criança. Às vezes mostrava certa curiosidade por uma ou outra sepultura com os pálidos medalhões de retratos esmaltados.
– É imenso, hem? E tão miserável, nunca vi um cemitério mais miserável, é deprimente – exclamou ela atirando a ponta do cigarro na direção de um anjinho de cabeça decepada.- Vamos embora, Ricardo, chega.
– Ah, Raquel, olha um pouco para esta tarde! Deprimente por quê? Não sei onde foi que eu li, a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da tarde, está no crepúsculo, nesse meio-tom, nessa ambigüidade. Estou lhe dando um crepúsculo numa bandeja e você se queixa.
– Não gosto de cemitério, já disse. E ainda mais cemitério pobre.
Delicadamente ele beijou-lhe a mão.
– Você prometeu dar um fim de tarde a este seu escravo.
– É, mas fiz mal. Pode ser muito engraçado, mas não quero me arriscar mais.
– Ele é tão rico assim?
– Riquíssimo. Vai me levar agora numa viagem fabulosa até o Oriente. Já ouviu falar no Oriente? Vamos até o Oriente, meu caro…
Ele apanhou um pedregulho e fechou-o na mão. A pequenina rede de rugas voltou a se estender em redor dos seus olhos. A fisionomia, tão aberta e lisa, repentinamente escureceu, envelhecida. Mas logo o sorriso reapareceu e as rugazinhas sumiram.
– Eu também te levei um dia para passear de barco, lembra?
Recostando a cabeça no ombro do homem, ela retardou o passo.
– Sabe Ricardo, acho que você é mesmo tantã…Mas, apesar de tudo, tenho às vezes saudade daquele tempo. Que ano aquele! Palavra que, quando penso, não entendo até hoje como agüentei tanto, imagine um ano.
– É que você tinha lido A dama das Camélias, ficou assim toda frágil, toda sentimental. E agora? Que romance você está lendo agora. Hem?
– Nenhum – respondeu ela, franzindo os lábios. Deteve-se para ler a inscrição de uma laje despedaçada: – A minha querida esposa, eternas saudades – leu em voz baixa. Fez um muxoxo.- Pois sim. Durou pouco essa eternidade.
Ele atirou o pedregulho num canteiro ressequido.
Mas é esse abandono na morte que faz o encanto disto. Não se encontra mais a menor intervenção dos vivos, a estúpida intervenção dos vivos. Veja- disse, apontando uma sepultura fendida, a erva daninha brotando insólita de dentro da fenda -, o musgo já cobriu o nome na pedra. Por cima do musgo, ainda virão as raízes, depois as folhas…Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade, nem o nome sequer. Nem isso.
Ela aconchegou-se mais a ele. Bocejou.
– Está bem, mas agora vamos embora que já me diverti muito, faz tempo que não me divirto tanto, só mesmo um cara como você podia me fazer divertir assim – Deu-lhe um rápido beijo na face. – Chega Ricardo, quero ir embora.
– Mais alguns passos…
– Mas este cemitério não acaba mais, já andamos quilômetros! – Olhou para atrás. – Nunca andei tanto, Ricardo, vou ficar exausta.
– A boa vida te deixou preguiçosa. Que feio – lamentou ele, impelindo-a para frente. – Dobrando esta alameda, fica o jazigo da minha gente, é de lá que se vê o pôr do sol. – E, tomando-a pela cintura: – Sabe, Raquel, andei muitas vezes por aqui de mãos dadas com minha prima. Tínhamos então doze anos. Todos os domingos minha mãe vinha trazer flores e arrumar nossa capelinha onde já estava enterrado meu pai. Eu e minha priminha vínhamos com ela e ficávamos por aí, de mãos dadas, fazendo tantos planos. Agora as duas estão mortas.
– Sua prima também?
– Também. Morreu quando completou quinze anos. Não era propriamente bonita, mas tinha uns olhos…Eram assim verdes como os seus, parecidos com os seus. Extraordinário, Raquel, extraordinário como vocês duas…Penso agora que toda a beleza dela residia apenas nos olhos, assim meio oblíquos, como os seus.
– Vocês se amaram?
– Ela me amou. Foi a única criatura que…- Fez um gesto. – Enfim não tem importância.
Raquel tirou-lhe o cigarro, tragou e depois devolveu-o
– Eu gostei de você, Ricardo.
– E eu te amei. E te amo ainda. Percebe agora a diferença?
Um pássaro rompeu o cipreste e soltou um grito. Ela estremeceu.
– Esfriou, não? Vamos embora.
– Já chegamos, meu anjo. Aqui estão meus mortos.
Pararam diante de uma capelinha coberta de alto a baixo por uma trepadeira selvagem, que a envolvia num furioso abraço de cipós e folhas. A estreita porta rangeu quando ele a abriu de par em par. A luz invadiu um cubículo de paredes enegrecidas, cheias de estrias de antigas goteiras. No centro do cubículo, um altar meio desmantelado, coberto por uma toalha que adquirira a cor do tempo. Dois vasos de desbotada opalina ladeavam um tosco crucifixo de madeira. Entre os braços da cruz, uma aranha tecera dois triângulos de teias já rompidas, pendendo como farrapos de um manto que alguém colocara sobre os ombro do Cristo. Na parede lateral, à direita da porta, uma portinhola de ferro dando acesso para uma escada de pedra, descendo em caracol para a catacumba.
Ela entrou na ponta dos pés, evitando roçar mesmo de leve naqueles restos da capelinha.
– Que triste é isto, Ricardo. Nunca mais você esteve aqui?
Ele tocou na face da imagem recoberta de poeira. Sorriu melancólico.
– Sei que você gostaria de encontrar tudo limpinho, flores nos vasos, velas, sinais da minha dedicação, certo?
– Mas já disse que o que eu mais amo neste cemitério é precisamente esse abandono, esta solidão. As pontes com o outro mundo foram cortadas e aqui a morte se isolou total. Absoluta.
Ela adiantou-se e espiou através das enferrujadas barras de ferro da portinhola. Na semi-obscuridade do subsolo, os gavetões se estendiam ao longo das quatro paredes que formavam um estreito retângulo cinzento.
– E lá embaixo?
– Pois lá estão as gavetas. E, nas gavetas, minhas raízes. Pó, meu anjo, pó- murmurou ele. Abriu a portinhola e desceu a escada. Aproximou-se de uma gaveta no centro da parede, segurando firme na alça de bronze, como se fosse puxá-la. – A cômoda de pedra. Não é grandiosa?
Detendo-se no topo da escada, ela inclinou-se mais para ver melhor.
– Todas estas gavetas estão cheias?
– Cheias?…- Sorriu.- Só as que tem o retrato e a inscrição, está vendo? Nesta está o retrato da minha mãe, aqui ficou minha mãe- prosseguiu ele, tocando com as pontas dos dedos num medalhão esmaltado, embutido no centro da gaveta.
Ela cruzou os braços. Falou baixinho, um ligeiro tremor na voz.
– Vamos, Ricardo, vamos.
– Você está com medo?
– Claro que não, estou é com frio. Suba e vamos embora, estou com frio!
Ele não respondeu. Adiantara-se até um dos gavetões na parede oposta e acendeu um fósforo. Inclinou-se para o medalhão frouxamente iluminado:
– A priminha Maria Emília. Lembro-me até do dia em que tirou esse retrato. Foi umas duas semanas antes de morrer… Prendeu os cabelos com uma fita azul e vejo-a se exibir, estou bonita? Estou bonita?…- Falava agora consigo mesmo, doce e gravemente.- Não, não é que fosse bonita, mas os olhos…Venha ver, Raquel, é impressionante como tinha olhos iguais aos seus.
Ela desceu a escada, encolhendo-se para não esbarrar em nada.
– Que frio que faz aqui. E que escuro, não estou enxergando…
Acendendo outro fósforo, ele ofereceu-o à companheira.
– Pegue, dá para ver muito bem…- Afastou-se para o lado.- Repare nos olhos.
– Mas estão tão desbotados, mal se vê que é uma moça…- Antes da chama se apagar, aproximou-a da inscrição feita na pedra. Leu em voz alta, lentamente.- Maria Emília, nascida em vinte de maio de mil oitocentos e falecida…- Deixou cair o palito e ficou um instante imóvel – Mas esta não podia ser sua namorada, morreu há mais de cem anos! Seu menti…
Um baque metálico decepou-lhe a palavra pelo meio. Olhou em redor. A peça estava deserta. Voltou o olhar para a escada. No topo, Ricardo a observava por detrás da portinhola fechada. Tinha seu sorriso meio inocente, meio malicioso.
– Isto nunca foi o jazigo da sua família, seu mentiroso? Brincadeira mais cretina! – exclamou ela, subindo rapidamente a escada. – Não tem graça nenhuma, ouviu?
Ele esperou que ela chegasse quase a tocar o trinco da portinhola de ferro. Então deu uma volta à chave, arrancou-a da fechadura e saltou para trás.
– Ricardo, abre isto imediatamente! Vamos, imediatamente! – ordenou, torcendo o trinco.- Detesto esse tipo de brincadeira, você sabe disso. Seu idiota! É no que dá seguir a cabeça de um idiota desses. Brincadeira mais estúpida!
– Uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta, tem uma frincha na porta. Depois, vai se afastando devagarinho, bem devagarinho. Você terá o pôr do sol mais belo do mundo.
Ela sacudia a portinhola.
– Ricardo, chega, já disse! Chega! Abre imediatamente, imediatamente!- Sacudiu a portinhola com mais força ainda, agarrou-se a ela, dependurando-se por entre as grades. Ficou ofegante, os olhos cheios de lágrimas. Ensaiou um sorriso. – Ouça, meu bem, foi engraçadíssimo, mas agora preciso ir mesmo, vamos, abra…
Ele já não sorria. Estava sério, os olhos diminuídos. Em redor deles, reapareceram as rugazinhas abertas em leque.
– Boa noite, Raquel.
– Chega, Ricardo! Você vai me pagar!… – gritou ela, estendendo os braços por entre as grades, tentando agarrá-lo.- Cretino! Me dá a chave desta porcaria, vamos!- exigiu, examinando a fechadura nova em folha. Examinou em seguida as grades cobertas por uma crosta de ferrugem. Imobilizou-se. Foi erguendo o olhar até a chave que ele balançava pela argola, como um pêndulo. Encarou-o, apertando contra a grade a face sem cor. Esbugalhou os olhos num espasmo e amoleceu o corpo. Foi escorregando.
– Não, não…
Voltado ainda para ela, ele chegara até a porta e abriu os braços. Foi puxando as duas folhas escancaradas.
– Boa noite, meu anjo.
Os lábios dela se pregavam um ao outro, como se entre eles houvesse cola. Os olhos rodavam pesadamente numa expressão embrutecida.
– Não…
Guardando a chave no bolso, ele retomou o caminho percorrido. No breve silêncio, o som dos pedregulhos se entrechocando úmidos sob seus sapatos. E, de repente, o grito medonho, inumano:
– NÃO!
Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de um animal sendo estraçalhado. Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra. Assim que atingiu o portão do cemitério, ele lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento. Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado. Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda.


Lygia Fagundes Telles In: Antes do Baile Verde. 1970.

quarta-feira, 14 de abril de 2021

COLÉGIO MONTE CLARO - PROJETO SEMANA PEDAGÓGICA: ÁRVORE DO CONHECIMENTO ...

O ARQUIVO


O ARQUIVO


No fim de um ano de trabalho, João obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos.

joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.

Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.

Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.

O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.

Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento.

Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.

Agora joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.

Prosseguiu a luta.

Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.

joão preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.

Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal.

Respirou descompassado.

— Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor.

joão baixou a cabeça em sinal de modéstia.

— Sabemos de todos os seus esforços. É nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.

O coração parava.

— Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.

A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam.

— De hoje em diante, o senhor passará a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?

Radiante, joão gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.

Nesta noite, joão não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio.

Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixara de jantar. O almoço reduzira-se a um sanduíche. Emagrecia, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminara certas despesas inúteis, lavadeira, pensão.

Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência. A vida foi passando, com novos prêmios.

Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.

O corpo era um monte de rugas sorridentes.

Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho. Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:

— Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.

O crânio seco comprimiu-se. Do olho amarelado, escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:— Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas desejo requerer minha aposentadoria.

O chefe não compreendeu:

— Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?

A emoção impediu qualquer resposta.

joão afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento.

joão transformou-se num arquivo de metal.

(GIUDICE, Victor. In: Setecontos setecantos. São Paulo: FTD, 1986.v.2)