terça-feira, 22 de março de 2022

LITERATURA - MORTE E VIDA SEVERINA - João Cabral de Melo Neto

SUGESTÃO DE TRABALHO ESCOLAR 
MORTE E VIDA SEVERINA (João Cabral de Melo)


ASSISTE AO ENTERRO DE UM TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O LEVARAM AO CEMITÉRIO

   Essa cova em que estás,

com palmos medida,
é a cota menor
que tiraste em vida.


É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
deste latifúndio.

 

Não é cova grande,
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.


É uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.


É uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.


É uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.


Viverás, e para sempre,
na terra que aqui aforas:
e terás enfim tua roça.


Aí ficarás para sempre,
livre do sol e da chuva,
criando tuas saúvas.


Agora trabalharás
só para ti, não a meias,
como antes em terra alheia.


Trabalharás uma terra
da qual, além de senhor,
serás homem de eito e trator.

 

 

Trabalhando nessa terra,
tu sozinho tudo empreitas:
serás semente, adubo, colheita.

 

Trabalharás numa terra
que também te abriga e te veste:
embora com o brim do Nordeste.

 

Será de terra tua derradeira camisa:
te veste, como nunca em vida.
Será de terra e tua melhor camisa:
te veste e ninguém cobiça.


Terás de terra
completo agora o teu fato:
e pela primeira vez, sapato.


Como és homem,
a terra te dará chapéu:
fosses mulher, xale ou véu.


Tua roupa melhor
será de terra e não de fazenda:
não se rasga nem se remenda.


Tua roupa melhor
e te ficará bem cingida:
como roupa feita à medida.


Esse chão te é bem conhecido
(bebeu teu suor vendido).


Esse chão te é bem conhecido
(bebeu o moço antigo).


Esse chão te é bem conhecido
(bebeu tua força de marido).


Desse chão és bem conhecido
(através de parentes e amigos).


Desse chão és bem conhecido
(vive com tua mulher, teus filhos).


Desse chão és bem conhecido
(te espera de recém-nascido).


Não tens mais força contigo:
deixa-te semear ao comprido.


Já não levas semente viva:
teu corpo é a própria maniva.


Não levas rebolo de cana:
és o rebolo, e não de caiana.


Não levas semente na mão:
és agora o próprio grão.


Já não tens força na perna:
deixa-te semear na coveta.


Já não tens força na mão:
deixa-te semear no leirão.


Dentro da rede não vinha nada,
só tua espiga debulhada.


Dentro da rede vinha tudo,
só tua espiga no sabugo.


Dentro da rede coisa vasqueira,
só a maçaroca banguela
.


Dentro da rede coisa pouca,
tua vida que deu sem soca.


Na mão direita um rosário,
milho negro e ressecado.


Na mão direita somente
o rosário, seca semente.


Na mão direita, de cinza,
o rosário, semente maninha
.


Na mão direita o rosário,
semente inerte e sem salto.


Despido vieste no caixão,
despido também se enterra o grão.


De tanto te despiu a privação
que escapou de teu peito a viração.


Tanta coisa despiste em vida
que fugiu de teu peito a brisa.
E agora, se abre o chão e te abriga,
lençol que não tiveste em vida.
Se abre o chão e te fecha,
dando-te agora cama e coberta.
Se abre o chão e te envolve,
como mulher com quem se dorme.

 

Fonte: https://www.passeiweb.com/morte_e_vida_severina/

 

 

segunda-feira, 21 de março de 2022

ORIENTAÇÃO SOBRE A APRESENTAÇÃO DO TEXTO MORTE E VIDA SEVERIDA (João Cab...



ORIENTAÇÃO SOBRE A APRESENTAÇÃO DO TEXTO MORTE E VIDA SEVERIDA (João Cabral de Melo Neto)

UMA MULHER, DA PORTA DE ONDE SAIU O HOMEM, ANUNCIA-LHE O QUE SE VERÁ

— Compadre José, compadre,
que na relva estais deitado:
conversais e não sabeis
que vosso filho é chegado?
Estais aí conversando
em vossa prosa entretida:
não sabeis que vosso filho
saltou para dentro da vida?
Saltou para dento da vida
ao dar o primeiro grito;
e estais aí conversando;
pois sabei que ele é nascido.


APARECEM E SE APROXIMAM DA CASA DO HOMEM VIZINHOS, AMIGOS, DUAS CIGANAS ETC.

— Todo o céu e a terra
lhe cantam louvor.
Foi por ele que a maré
esta noite não baixou.

— Foi por ele que a maré
fez parar o seu motor:
a lama ficou coberta
e o mau-cheiro não voou.
— E a alfazema do sargaço,
ácida, desinfetante,
veio varrer nossas ruas
enviada do mar distante.

— E a língua seca de esponja
que tem o vento terral
veio enxugar a umidade
do encharcado lamaçal.
— Todo o céu e a terra
lhe cantam louvor
e cada casa se torna
num mocambo sedutor.

— Cada casebre se torna
no mocambo modelar
que tanto celebram os
sociólogos do lugar.
— E a banda de maruins
que toda noite se ouvia
por causa dele, esta noite,
creio que não irradia.

— E este rio de água cega,
ou baça, de comer terra,
que jamais espelha o céu,
hoje enfeitou-se de estrela

 

COMEÇAM A CHEGAR PESSOAS TRAZENDO PRESENTES PARA O RECÉM-NASCIDO

— Minha pobreza tal é
que não trago presente grande:
trago para a mãe caranguejos
pescados por esses mangues;
mamando leite de lama
conservará nosso sangue.

— Minha pobreza tal é
que coisa não posso ofertar:
somente o leite que tenho
para meu filho amamentar;
aqui são todos irmãos,
de leite, de lama, de ar.
— Minha pobreza tal é
que não tenho presente melhor:
trago papel de jornal
para lhe servir de cobertor;
cobrindo-se assim de letras
vai um dia ser doutor.
— Minha pobreza tal é
que não tenho presente caro:
como não posso trazer
um olho d’água de Lagoa do Carro,
trago aqui água de Olinda,
água da bica do Rosário.
 — Minha pobreza tal é
que grande coisa não trago:
trago este canário da terra
que canta corrido e de estalo.
— Minha pobreza tal é
que minha oferta não é rica:
trago daquela bolacha d’água
que só em Paudalho se fabrica.
— Minha pobreza tal é
que melhor presente não tem:
dou este boneco de barro
de Severino de Tracunhaé
m.
— Minha pobreza tal é
que pouco tenho o que dar:
dou da pitu que o pintor Monteiro
fabricava em Gravatá.
— Trago abacaxi de Goiana
e de todo o Estado rolete de cana.
— Eis ostras chegadas agora,
apanhadas no cais da Aurora.
— Eis tamarindos da Jaqueira
e jaca da Tamarineira.

— Mangabas do Cajueiro
e cajus da Mangabeira.
— Peixe pescado no Passarinho,
carne de boi dos Peixinhos.

— Siris apanhados no lamaçal
que há no avesso da rua Imperial.
— Mangas compradas nos quintais ricos
do Espinheiro e dos Aflitos.

— Goiamuns dados pela gente pobre
da Avenida Sul e da Avenida Norte.

 

 

FALAM AS DUAS CIGANAS QUE HAVIAM APARECIDO COM OS VIZINHOS

— Atenção peço, senhores,
para esta breve leitura:
somos ciganas do Egito,
lemos a sorte futura.
Vou dizer todas as coisas
que desde já posso ver
na vida desse menino
acabado de nascer:
aprenderá a engatinhar
por aí, com aratus,
aprenderá a caminhar
na lama, como goiamuns,
e a correr o ensinarão
o anfíbios caranguejos,
pelo que será anfíbio
como a gente daqui mesmo.
Cedo aprenderá a caçar:
primeiro, com as galinhas,
que é catando pelo chão
tudo o que cheira a comida;
depois, aprenderá com
outras espécies de bichos:
com os porcos nos monturos,
com os cachorros no lixo.
Vejo-o, uns anos mais tarde,
na ilha do Maruim,
vestido negro de lama,
voltar de pescar siris;
e vejo-o, ainda maior,
pelo imenso lamarão
fazendo dos dedos iscas
para pescar camarão.

Outra cigana
— Atenção peço, senhores,
também para minha leitura:
também venho dos Egitos,
vou completar a figura.
Outras coisas que estou vendo
é necessário que eu diga:
não ficará a pescar
de jereré toda a vida.
Minha amiga se esqueceu
de dizer todas as linhas;
não pensem que a vida dele
há de ser sempre daninha.
Enxergo daqui a planura
que é a vida do homem de ofício,
bem mais sadia que os mangues,
tenha embora precipícios.
Não o vejo dentro dos mangues,
vejo-o dentro de uma fábrica:
se está negro não é lama,
é graxa de sua máquina,
coisa mais limpa que a lama
do pescador de maré
que vemos aqui, vestido
de lama da cara ao pé.
E mais: para que não pensem
que em sua vida tudo é triste,
vejo coisa que o trabalho
talvez até lhe conquiste:
que é mudar-se destes mangues
daqui do Capibaribe
para um mocambo melhor
nos mangues do Beberibe.


FALAM OS VIZINHOS, AMIGOS, PESSOAS QUE VIERAM COM PRESENTES ETC.

— De sua formosura
já venho dizer:
é um menino magro,
de muito peso não é,
mas tem o peso de homem,
de obra de ventre de mulher.
— De sua formosura
deixai-me que diga:
é uma criança pálida,
é uma criança franzina,
mas tem a marca de homem,
marca de humana oficina.
— Sua formosura
deixai-me que cante:
é um menino guenzo
como todos os desses mangues,
mas a máquina de homem
já bate nele, incessante.
— Sua formosura
eis aqui descrita:
é uma criança pequena,
enclenque e setemesinha,
mas as mãos que criam coisas
nas suas já se adivinha.
— De sua formosura
deixai-me que diga:
é belo como o coqueiro
que vence a areia marinha.

— De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como o avelós
contra o Agreste de cinza.
— De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como a palmatória
na caatinga sem saliva.
— De sua formosura
deixai-me que diga:
é tão belo como um sim
numa sala negativa.
— É tão belo como a soca
que o canavial multiplica.

— Belo porque é uma porta
abrindo-se em mais saídas.
— Belo como a última onda
que o fim do mar sempre adia.
— É tão belo como as ondas
em sua adição infinita.
— Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.

— Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
— Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.

— Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.
— E belo porque com o novo
todo o velho contagia.
— Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.
— Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.
— Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.



Fonte: https://www.passeiweb.com/morte_e_vida_severina/